terça-feira, 20 de março de 2012

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Justiça
PMs absolvidos de acusação de execução
Tese de que houve troca de tiros quando policiais foram acionados devido a presença de suspeitos em chácara saiu vencedora em julgamento
19 de março de 2012 (segunda-feira)

Zuhair Mohamad
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A perícia inconclusiva foi determinante para que os policiais militares Adílio Teixeira, José Divino Cabral e Ricardo Rocha fossem absolvidos por júri popular da acusação de terem, em 2002, executado o foragido da Justiça Rodrigo da Costa Torres, à época com 21 anos. O fato aconteceu no dia 11 de setembro daquele ano. Um dos absolvidos, Ricardo Rocha – que foi preso no ano passado durante a Operação Sexto Mandamento –, já tem planos de voltar ao posto de comandante (leia entrevista ao lado) de batalhão.

Venceu a tese de que os policiais foram alertados por moradores das Chácaras Califórnia sobre a presença de suspeitos. Ao chegarem ao local, se depararam com Rodrigo, que estaria armado. Houve troca de tiros e quatro balas atingiram a vítima, que morreu no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo).

Defesa e acusação não participaram da elaboração das peças. O promotor presente no julgamento, Murilo Frazão, fez a sustentação do texto elaborado por colegas do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO). Foi por provocação do órgão que o caso chegou a ser julgado. O inquérito da Polícia Civil sugeria arquivamento por falta de provas de que poderia ter havido uma execução.

A sustentação oral da defesa foi feita pelo advogado Ricardo Naves, com auxílio de Tadeu Bastos Roriz e Silva. Os argumentos defendidos por eles, no entanto, foram elaborados por outro advogado, nomeado pelo Estado para defender os três réus. A contratação da dupla se deu apenas para a defesa no júri, devido a experiência.

Naves classificou a perícia e a peça elaborada pelo MP-GO como “fajutas”. Ressaltou que a perícia foi feita “dois ou três dias depois de lavado o corpo”. Rodrigo foi atingido por quatro balas, uma delas acertou a mão com a qual ele estaria segurando a arma. “O corpo passou por assepsia”, afirmou o advogado, para justificar a ausência de pólvora na mão da vítima. Em relatório, o perito escreveu que o fato de não ter resquício de tiro não significava que o disparo não poderia ter sido feito.

Entre os argumentos vencedores, também está a inversão do ônus da prova. “O promotor falou o tempo todo de indício. A soma de indícios não configura prova.”

Antecedentes

Condenado a uma pena de 7 anos, 1 mês e 10 dias pelo crime de roubo, Rodrigo da Costa Torres fugiu do Centro Penitenciário (Cepen), antigo Cepaigo, com outros sete detentos. Durante um patrulhamento de rotina das Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam) na região norte da capital, Rodrigo acabou preso pela equipe formada pelos militares Cabral, Rocha e Teixeira, que atualmente ocupam os postos de coronel, tenente-coronel e tenente, respectivamente.

Entrevista | Tenente - Coronel Ricardo Rocha
“Quero voltar a ser comandante de batalhão”


Cerca de 50 policiais, amigos e parentes acompanharam todo o julgamento de Ricardo Rocha, Adílio Teixeira e José Divino Cabral. Ao final da sessão, os três receberam, ainda no Tribunal do Júri, cumprimentos de dezenas de pessoas. Já do lado de fora, o tenente-coronel estava sentado na mureta do Fórum, conversando com o pai e a mulher. O POPULAR falou com Ricardo Rocha sobre a absolvição e os planos para o futuro.

Qual a sensação de ter sido absolvido pelo júri popular?


É mais uma batalha que a gente vence, entre as que virão. E mais uma vez foi configurada a Justiça vinda da população. Estávamos em defesa da população e graças a Deus a própria população entendeu. Isso reforça a nossa vontade de – nestes mais de 21 anos de serviços prestados à corporação –, poder voltar a atuar como comandante.

Você pretende voltar para as ruas?

Quero voltar a minha carreira, voltar a ser comandante de batalhão, como fui de diversos. Espero reconquistar meu espaço como oficial dentro da corporação. Estou apto.

Onde está trabalhando atualmente?


Trabalhei cinco anos sem tirar férias. Por isso estou de férias de cinco meses. Estou no terceiro mês de férias, mas estou apto para voltar.

Deseja ir para algum batalhão específico?


O que desejo é, como profissional, poder conquistar a confiança novamente da Secretaria de Segurança Pública e Justiça (SSPJ), do comando da Polícia Militar (PM) e da população.
Policiais consideravam oficiais como líder

Considerado por parte da Polícia Militar como um líder nato e combativo no serviço operacional, o tenente-coronel Ricardo Rocha Batista, de 38 anos, saiu das ruas depois que foi preso pela Operação Sexto Mandamento, da Polícia Federal, em fevereiro do ano passado e permanece afastado das ruas, desde que foi solto por determinação da Justiça em 29 de novembro.

Na Operação Sexto Mandamento, ele e outros 18 militares foram presos suspeitos de integrar grupo de extermínio responsável pela morte de mais de 50 pessoas em 10 anos em Goiás.

Ricardo Rocha entrou na PM em 1991. Foi comandante das Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam) em 2004 - ano em que a PM mais matou em Goiás, segundo estatísticas oficiais.

Ele também comandou a PM em Rio Verde, em Formosa e em Goiânia, esteve à frente do Grupo de Patrulhamento Aéreo (Graer) da PM.

O coronel foi candidato a deputado estadual no último pleito, com o slogan “Tolerância Zero contra o crime”. O número de votos dele não foi divulgado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) já que o candidato não tinha “ficha limpa”.

Há dois anos, quando foi entrevistado pelo POPULAR, o tenente-coronel Ricardo Rocha negou que fizesse parte ou comandasse um grupo de extermínio e se defendeu dizendo que é um militar voltado aos interesses de Goiás.

Outros militares


O coronel José Divino Cabral, de 47, foi comandante da Rotam e do Batalhão de Choque. Ele também foi acusado de participação em duas mortes ocorridas durante a desocupação do Parque Oeste Industrial, em 2005.

O tenente Adélio Teixeira integrou a Rotam quando o coronel José Divino Cabral foi comandante.
Tenente-coronel ainda é suspeito de 17 outros homicídios no Estado

Além do assassinato de Rodrigo da Costa Torres, em setembro de 2002, o tenente-coronel Ricardo Rocha responde a processos criminais, todos qualificados, pelas mortes de Alessandro Ferreira Rodrigues, o Nego Léo, morto em setembro de 2006; o assassinato do adolescente David Morais, em 11 de março de 2001, no Jardim Novo Mundo; de Bruno dos Anjos Ribeiro, em junho de 2004; e deMarcelo Coka da Silva, em setembro de 2004, todos em Goiânia.

Em Rio Verde, Ricardo Rocha é suspeito da execução de Cláudio Antônio Schu, Paulino de Almeida, Natron Rodrigues da Silva, Longuimário Coelho de Andrade e Aleandro Ribeiro Silva, às margens de um córrego, em 10 de outubro de 2003.

Em Cachoeira Alta, o militar ainda é suspeito das mortes de Cleiton Silva Sousa, Gilson da Silva Rocha, Nilton Alves Rocha Júnior, Marcondes da Silva Carvalho e Amilton Pereira Rocha, ocorridas no dia 6 de março de 2006.

Quando era comandante da PM em Formosa, o então major Ricardo Rocha foi acusado de envolvimento em sequestro, homicídio e ocultação de cadáver de três pessoas em Flores de Goiás e Alvorada do Norte. As três vítimas eram suspeitas de diversos furtos em fazendas da região. A denúncia na época era de que os militares teriam sido pagos para exterminar os ladrões.
Fonte: Jornal Opopular.